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Indicadores NEAD e os cuidados de saúde baseado em valor

Indicadores para o caminho da medicina baseada em valor

Por Maristone Gomes


Como realizar um atendimento de saúde que gere um resultado real e significativo para o paciente e sua família? E como fazer com que empresas prestadoras desses serviços sejam remuneradas de acordo com o valor entregue e percebido pelo paciente? Apesar de diversas contradições, que esperamos ajudar em sua superação, o setor de saúde vive atualmente um momento de crescimento e aprimoramento incrível. Novas tecnologias potencializam os tratamentos e a gestão das instituições. Entretanto, o valor gerado para o clientes e o nível de satisfação do usuário nem sempre é positivo. A combinação de duas iniciativas pode mudar essa história. De um lado, o atendimento de saúde baseado em valor. De outro, a série de indicadores aprimorada pelo Núcleo de Empresas de Atenção Domiciliar (Nead) que nos ajuda a pensar nesse valor.

O Nead aprimorou a lista de índices da RDC-11, que devem ser medidos para entender a qualidade dos serviços prestados. Com indicadores únicos para todo o setor de atendimento de saúde em casa, a iniciativa pretende padronizar a forma de medir resultados e dificuldades. O objetivo é iniciar uma série histórica e, com ela, estimular a evolução do setor e fortalecer o posicionamento junto a fontes pagadoras.

A Salvus tem o Nead como uma de nossas referências técnicas há alguns anos. Por isso, os indicadores propostos pelo núcleo serão programados no Healthcare Assistive Intelligence (HAI), o sistema de gestão para empresas de “hospital em casa”. Entendemos a nova padronização de indicadores proposta pelo Nead como uma evolução bem-vinda aos números da Resolução da Diretoria Colegiada do Ministério da Saúde, RDC-11, que, desde 2000 regulamenta questões básicas do atendimento médico em domicílio.

A HAI medirá os índices do Nead automaticamente e nossos clientes poderão enviar os relatórios periodicamente ao Núcleo. Nosso objetivo é aumentar a qualidade do atendimento e rentabilidade dos prestadores, sem cobrar mais dos pacientes. Podemos fazer isso eliminando desperdícios e melhorando processos. 

Essa forma de pensar a gestão do serviço de saúde e a qualidade do atendimento prestado ao usuário tem como base o modelo de value-based health care (VBHC), ou seja, “atenção de saúde baseada em valor”.

A filosofia VBHC propõe a reestruturação dos sistemas de saúde para definir os valores cobrados por serviços médicos de acordo com o resultado obtido pelo paciente. É uma abordagem que procura colocar o ser humano no centro, focando nos benefícios e soluções que ele ou ela recebe para, com base nisso, pensar nos custos financeiros a serem cobrados. 

O que é atenção de saúde baseada em valor?  

O conceito de atendimento de saúde baseado em valor foi introduzido em 2006 pela professora da escola de Medicina da Universidade do Texas Elizabeth Olmsted Teisberg, e pelo professor da escola de administração da Universidade de Harvard Michael E Porter. Juntos eles publicaram o livro Redefining Health Care Creating Value-Based Competition on Results (Redefinindo o Cuidado de Saúde pela Criação de Competição Baseada no Valor dos Resultados). A obra é resultado de 10 anos de pesquisa. Eles estudaram porque o setor de saúde nos Estados Unidos não se encaixava nos princípios de competição vistos em todos outros setores da economia. Para Teisberg e Potter, os cuidados de saúde seguiam um formato de concorrência disfuncional e as empresas provedoras competiam nas coisas erradas no nível errado. Como resultado dessa anormalidade, o sistema de saúde dos EUA estava gastando mais por cidadão em saúde do que qualquer outra nação e piorando os resultados em áreas importantes, como a mortalidade neonatal.

Por que focar no valor?   

A teoria de Teisberg e Potter parte do princípio que o setor de saúde evoluiu enormemente nos últimos 50 anos em termos de tecnologias e soluções. Entretanto, a forma como esses serviços são entregues à população permaneceu praticamente a mesma. Os formatos de gerenciamento e pagamento de consultas, por exemplo, estão desatualizados. Os pesquisadores perceberam que, à medida que novas formas de gestão iam surgindo no mercado, as empresas de saúde tentavam melhorar as práticas com o novo conhecimento. Algumas técnicas foram sendo implantadas e eles citam como exemplos o uso de medicina baseada em evidências, iniciativas de segurança, registros eletrônicos, abordagens “enxutas”​ para melhoria de desempenho, coordenadores de atendimento, transformação de pacientes em clientes pagantes, fusões, análises, medicina personalizada ou de precisão. Para eles, essa profusão de métodos acabou resultando em um sistema caro e complexo, com vários objetivos em vez de um único objetivo unificador.

A revolução do modelo VBHC

Nesse cenário, Porter e Teisberg propuseram uma reestruturação radical do sistema de saúde com foco na competição e na melhoria. Eles propuseram uma única meta unificadora para os cuidados de saúde: entregar valor para o paciente. Com base em sua extensa pesquisa, eles propuseram que, para obter valor para os pacientes, a prestação de cuidados de saúde precisava ser organizada em torno das condições médicas dos pacientes, medir com precisão os resultados que importam para os pacientes e medir o custo para alcançá-los. O pagamento deve refletir o valor e não o volume. Redes de atenção que realizam os serviços certos, no local certo, com as pessoas certas são essenciais e vinculadas a um sistema de tecnologia da informação que suporte todos esses elementos que se reforçam mutuamente.

Os seis princípios da atenção de saúde baseada em valor

A Universidade de Harvard explica os seis principais elementos da abordagem da saúde baseada no valor entregue / percebido pelo paciente: 

1.Organizar o atendimento em torno das condições médicas:

As necessidades de saúde são complexas e inter-relacionadas. Para entregar mais valor real, os provedores precisam aprofundar conhecimentos e expandir a capacidade de atender necessidades do paciente com esta complexidade em mente durante todo o ciclo de atendimento. As maiores melhorias nos resultados e na eficiência dos cuidados de saúde são fruto de atuação em equipe e com cruzamento de práticas e tratamentos integrados. O atendimento deve ser organizado em torno das condições médicas ao longo de todo o processo. As unidades de prática integradas devem atingir escopo e escala, crescendo em suas áreas de expertise.

2.Medir resultados e custos para cada paciente: 

A relação entre o custo do serviço e o resultado obtido é diferente para cada paciente. O setor de saúde tem investido bilhões de dólares em programas de medição de qualidade e sistemas complexos de contabilidade de custos, mas esses sistemas, atualmente, falham em entender e medir os resultados que realmente importam para os pacientes e como alcançá-los.

3. Alinhar pagamento com valor: 

A prestação de cuidados de saúde com base em valor motiva e recompensa os prestadores de serviços que oferecem os melhores resultados com os custos mais baixos e penaliza aqueles que não conseguem melhorar de forma eficaz a saúde do paciente. Os pagamentos individuais ou em grupos baseados em episódios para ciclos completos de atendimento trazem mais incentivos para que os provedores forneçam o máximo de valor aos pacientes. Um pagamento de reembolso agrupado cobre todos os tratamentos e intervenções realizadas ao longo de um ciclo completo de tratamento para uma condição médica aguda. 

4. Integrar sistemas: 

O atendimento eficazmente integrado em vários locais é um elemento essencial do sistema de prestação de cuidados de saúde baseado em valores. Concentrar o volume em condições médicas e tirar o atendimento de  condições não agudas dos hospitais melhora os resultados e reduz os custos. Quando os prestadores integram os cuidados em rede e em conjunto com os recursos da comunidade, eles agregam valor para os pacientes, para os próprios prestadores e para o sistema como um todo.

5. Estruturar a “geografia do cuidado”: 

Os principais prestadores de cuidados de saúde podem ajudar a liderar o caminho em direção a um sistema de prestação de cuidados de saúde com base em valor. Grandes players do mercado devem trabalhar em conjunto com provedores locais, fortalecendo o acesso à saúde em diferentes comunidades, aumentando a qualidade dos tratamentos, e ajudando a reduzir a fragmentação e as “lacunas” geográficas nos serviços médicos.

6. Ter apoio da Tecnologia da Informação: 

A tecnologia da informação pode dar apoio a todos os principais elementos da abordagem de saúde focado no valor. Nas últimas décadas, grandes esforços têm sido feitos para acelerar a adoção de TI na área de saúde, com avanços substanciais. Os parâmetros modelo VBHC, exigem um esforço ainda maior de união de forças entre empresas de tecnologia e prestadores de serviços de saúde. 

As métricas pensadas pelo Núcleo de Empresas de Atenção Domiciliar (Nead), no ano passado, são uma boa forma de começarmos a pensar no segundo princípio do atendimento de saúde baseado em valor. E como a ligação entre custo e resultado também gera impacto em como as prestadoras são remuneradas, a adoção de métricas claras para o setor dá dois passos na direção da VBHC. 

Medindo o valor da saúde em domicílio

Um autor de quem sou fã, Peter Drucker sintetizou uma premissa base que hoje está presente em toda jornada da startup só “o que pode ser medido, pode ser melhorado”. Um serviço de saúde baseado no valor precisa ser mensurado para ser compreendido e ajustado de acordo com as necessidades do público.

Os indicadores do Nead servem esse propósito. Eles são passos iniciais no objetivo de medir e entender o que o paciente está, de fato, recebendo em termos de tratamento e que valor não financeiro ele ou ela está atribuindo à atenção de saúde recebida. À medida que o mercado vai compreendendo melhor as necessidades das pessoas, ele começa a se aproximar de uma medicina baseada em valor.  

Para o Núcleo, o setor de saúde em domicílio precisa entender o que os associados estão fazendo de melhor e onde é possível criar melhorias e aprendizados. A direção do Nead disse acreditar que os indicadores serão um forte diferencial competitivo pois, irão evidenciar as vantagens do atendimento em casa em comparação com outras alternativas. “Queremos criar um benchmarking de indicadores e gerar um ciclo de melhorias para todo o setor”, comentou no evento de lançamento o médico Rafael Casagrande, um dos diretores do Nead.

Indicadores iniciais 

Os indicadores do Nead foram apresentados ao mercado em um seminário online. Representantes do núcleo se revezaram para apresentar todos os parâmetros, explicando como fazer os cálculos e quais são as justificativas em torno de cada um dos números. 

Os parâmetros iniciais são importantes para avaliar a efetividade das empresas de captar, avaliar, atender e manter clientes. Os indicadores são:

  • Número de avaliações realizadas
  • Número absoluto de pacientes implantados por mês em atenção domiciliar 
  • Número de pacientes novos implantados por mês em atenção domiciliar (diferenciando quais são pacientes novos e quais são recorrentes)
  • Taxa de efetividade do setor em captação de atenção domiciliar (para entender quantos dos pacientes avaliados são implantados)
  • Tempo de avaliação 
  • Tempo de implantação

Entendendo o paciente de atendimento de saúde em casa

O segundo grupo de indicadores tem o objetivo de detalhar qual é o perfil básico do paciente que recebe atendimento de saúde em domicílio ou é tratado em internação domiciliar. Os números são: 

  • Distribuição de pacientes por faixa etária
  • Distribuição de pacientes por sexo

Outro conjunto de indicadores deve mostrar informações sobre os principais eventos adversos: 

  • Incidência de queda na modalidade Internação Domiciliar
  • Incidência de queda por pressão na modalidade Internação Domiciliar
  • Incidência de lesão por pressão na modalidade Internação Domiciliar
  • Incidência de lesão por pressão na modalidade Internação Domiciliar
  • Incidência de infecções na modalidade Internação Domiciliar
  • Incidência de infecções na modalidade Atenção Domiciliar

Um detalhamento importante da seção sobre eventos adversos fala sobre infecções. O manual do Núcleo lista os eventos mais comuns nesse caso (infecções do trato urinário, do trato respiratório, tegumentares e gastrointestinais) e salienta que um dos diferenciais do atendimento domiciliar é que a modalidade, em geral, apresenta menor risco de infecção. Os dispositivos invasivos, como cateteres, são muito usados nos atendimentos em domicílio. Por essa razão, é de interesse das empresas do setor ter dados que comprovem baixas taxas de infecção nesses casos em comparação com o tratamento em hospitais. Os indicadores de infecção por dispositivos invasivos foram subdivididos para mostrar quais problemas advêm de cateteres (infecção do trato urinário), de ventilação mecânica invasiva (do trato respiratório) e de dispositivos venosos.

Medindo a alta no atendimento em domicílio

O Nead incluiu indicadores de alta e de óbito na sugestão de padronização, mas detalhou que esses eventos não necessariamente apontam para desfechos positivos ou negativos. Isso acontece porque nem sempre a cura é a meta terapêutica para pacientes atendidos em casa. É o caso de doentes terminais que recebem cuidados paliativos ou de pessoas com doenças crônicas, que terão tratamento continuado. Feitas essas observações, os parâmetros são: 

  • Densidade de Pneumonia Associada à Ventilação em Pacientes de Internação Domiciliar
  • Taxa de alta em Internação Domiciliar
  • Taxa de alta em Assistência domiciliar
  • Taxa de mortalidade em Internação Domiciliar
  • Taxa de mortalidade em Assistência domiciliar

Satisfação do paciente como indicador de resultado

Por fim, o Nead orientou a medição da satisfação do paciente de modo geral. Para isso, foram determinados dois indicadores com medição semestral:

  • NPS (Net Promoters Score)
  • Taxa de reclamação do usuário

O NPS é um indicador já utilizado em outras áreas. Ele divide os usuários em pessoas que promovem o produto ou serviço, pessoas que estão indiferentes ao produto ou serviço, e pessoas que reclamam do produto ou serviço. Para o Nead, as empresas do setor terão NPS maiores se souberem alinhar bem as expectativas dos pacientes com o atendimento a ser prestado. 

Acesso aos indicadores e instruções

AProposta de Padronização para Indicadores na Atenção Domiciliar está disponível para download no site do Nead www.neadsaude.org.br, no menu “Publicações/Biblioteca”. Associados do Núcleo podem acessar o material usando a senha pessoal. Outros interessados também podem baixar a proposta fazendo um cadastro na página.

Paciente no centro do cuidado

Medir e analisar os indicadores propostos pelo Nead é só o começo. O modelo VBHC é uma filosofia abrangente, que norteia diferentes aspectos da prestação de serviço de saúde. É, na verdade, uma forma de pensar todo o setor. Os próprios especialistas do Nead explicaram que os índices eram um necessário primeiro passo, e não um norte para a caminhada inteira. Aqui na Salvus, além de estarmos focados em acelerar esses primeiros passos, estamos de olho no futuro.

Na HAI é possível acompanhar em tempo real a evolução de todos esses indicadores e de outros operacionais, assistenciais e estratégicos. Também é possível exportar os dados em planilhas ou emitir relatórios e enviá-los.

Um dos princípios do atendimento centrado no paciente que está mais próximo do nosso dia a dia de trabalho é o apoio de tecnologias da informação para uma medicina mais inclusiva, acessível e de resultados relevantes para o indivíduo. Nos últimos meses, mais do que nunca, percebemos como avanços tecnológicos foram importantes para trazer melhorias nos sistemas de saúde. Assim como orienta o método VBHC, entendemos a força da união entre empresas de tecnologia e prestadores de serviços de saúde.

Outro pilar da medicina baseada em resultados que adotamos na Salvus é a integração de sistemas. Nós estamos focados em construir ferramentas para que possamos nos preparar hoje para o que virá amanhã, não abrimos mão da interoperabilidade. Nossos sistemas estão sendo desenvolvidos de forma a consolidar um Big Data estruturado que possibilite organizar o atendimento em torno das condições médicas, medir resultados e custos para cada paciente e alinhar o pagamento com base no valor gerado.

Queremos estar na vanguarda da medicina baseada em valor e ajudar a levar o setor de atendimento domiciliar para o futuro.

Fontes:

Universidade de Harvard

https://www.isc.hbs.edu/health-care/value-based-health-care/key-concepts/Pages/default.aspx

https://www.isc.hbs.edu/health-care/value-based-health-care/Pages/default.aspx

Nead

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Até mais!

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